Foi num daqueles arcos quentes de verão que tudo aconteceu. A mãe estava exausta, gritava, desesperada, implorando para que aquela dor cessasse. O pai, ao seu lado, apenas segurava sua mão, tentando em vão fazer desaparecer o sofrimento da companheira.
O som do silêncio era rompido a cada grito que ecoava pela cabana escura e úmida. Então, após um último clamor, a criança nasceu, limpa, como se tivesse acabado de emergir de um rio de águas cristalinas.
O pai a segurou por um instante e percebeu que a respiração da mãe tornava-se lenta, quase inexistente. Ele mostrou a criança à companheira, que lhe ofereceu um último sorriso antes de se esvair em si mesma.
Uma fresta lunar adentrou a cabana. A luz era forte e clara, tão intensa que fez a criança brilhar ao ser tocada por seus raios. Com os braços cansados, o pai a ergueu com delicadeza e caminhou em direção à porta, lançando um singelo adeus ao olhar da mulher que amara.
Ele ouvia o barulho dos seus perseguidores na floresta, aproximando-se a cada tique. Ele sabia que o prometido estava cumprido. Nada importava mais. Estava feito.
A luz da Luna cheia o alcançou ainda no batente da porta, preenchendo-lhe o peito com uma energia inexplicável: uma mistura dolorosa de alegria e tristeza por aquele momento para o qual haviam se preparado por toda a vida.
A criança, ainda envolta pela luz, abriu os olhos inquietos e encarou o rosto do pai, molhado de suor e lágrimas. Seus olhos eram negros como o mais profundo dos lagos sob o céu sem a Luna. Foi então que a luz a puxou de seus braços — com a mesma delicadeza com que ele a havia levado para fora.
A criança flutuou, girando numa espiral lenta e serena. O pai observava tudo com um coração estranhamente calmo, até que um clarão o consumiu. No instante final, tudo o que sentiu foi paz.
Seu corpo se dissolveu na brisa suave da noite, levando consigo aquilo que fora o pai daquela criança. Uma noite destinada a permanecer marcada pelo nascimento de quem mudaria o curso de tudo.