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Os Primeiros Capítulos

O Menino Lunar

Três capítulos para o leitor mergulhar em Valindor antes da queda.

Capítulo 1

A Notícia Esperada

Eron ainda sentia o peso da cama nas costas quando se arrastou até o estábulo. Observava no horizonte a Estrela do Leste iniciar seu brilho por trás da silhueta da Colina Rochosa.

Ele fez o caminho da casa até o estábulo com dificuldades, como se estivesse carregando uma carroça de feno invisível. Ao encarar o balde surrado e a pá imunda do arco anterior no armário, a irritação pela irmã voltou a latejar.

Estava de castigo. De novo. Tudo porque Lira insistira em segui-lo até a praça de Alpendre e terminara no chão após um empurrão mal calculado. Para os pais, não importava se fora “sem querer”; o lado da corda sempre estourava para o primogênito. Sempre.

Os dois constantemente entravam em conflito. Lira, na maioria das vezes, queria chamar a atenção de Eron e ele, por outro lado, não queria a irmã por perto. Tinha quinze ciclos, completados no último solstício de inverno, enquanto ela já contava dez. Estavam em fases da vida diferentes e seus interesses eram muito distintos, o que quase sempre terminava em discussão ou em castigo.

O menino vivera sua vida toda naquela fazenda, nomeada Rochasolta. Eron fora treinado desde cedo para a sucessão do legado de seu pai, Erog Rope. Aos dezoito ciclos, ele assumiria o controle da produção de laticínios e do pequeno haras. Era um futuro de responsabilidades do qual era lembrado a todo instante: fornecer os melhores animais para o Estado e abastecer Valindor com seus produtos de qualidade. Mas enquanto esse dia não chegava, a realidade do futuro dono de Rochasolta era bem mais humilde: um balde de esterco, uma pá suja e a tarefa ingrata de limpar dezesseis baias em um só arco.

Ele odiava aquela tarefa e, para o seu azar, todos os compartimentos estavam ocupados, cada um com um cavalo residente ou pronto para entrega. Os animais eram jovens e se alimentavam bem para manter a saúde, algo que o haras prezava e era reconhecido por isso, o que os tornava grandes produtores de excremento. Aquele era um trabalho demorado demais para uma pessoa apenas.

Com a pá em mãos, Eron raspava o chão da baia e carregava os dejetos até o balde, repetidamente. Fez todo o serviço na primeira baia e passou para a segunda. Alimentou Rajado, que já relinchava de fome, e começou a limpeza do local.

— Pelos Deuses, Rajado, como você consegue fazer tanto disso?

Eron estava exausto já na segunda baia e ainda faltavam quatorze para terminar. Limpava o suor que escorria pelo seu rosto quando ouviu uma risada vinda do alto. Encontrou Lira apoiada no muro da passagem superior do estábulo, normalmente utilizado para exibição dos animais para visitantes. Ela estampava um sorriso sarcástico.

— O que você quer, pirralha? Vai embora e não me encha a paciência — disse ele, ríspido.

— Queria ter certeza de que meu irmão querido estava cumprindo o castigo — respondeu ela. — E pelo andar da carruagem, acho que você não vai conseguir assistir ao discurso do Templo hoje. Acho melhor você se apressar.

— E tudo por sua causa — resmungou ele, raspando a pá no chão outra vez.

Ela ficou em silêncio, observando o irmão trabalhar. Ele sentia a presença da garota, o prazer dela em vê-lo naquela situação.

— Você está aqui ainda? — perguntou ele, olhando pra cima, impaciente.

— Eu tinha uma coisa pra te contar, tô tentando lembrar o que.

— Por que você não vai pensar longe daqui?

— Ah, lembrei! Você sabe quem chegou em Alpendre, irmãozinho? — provocou, em tom de deboche.

Eron parou o que estava fazendo e olhou para ela. O olhar misturava irritação e expectativa. Ele sabia exatamente de quem se tratava e Lira sabia que isso chamaria sua atenção. Esperava por aquela notícia havia mais de um ciclo, uma eternidade para alguém tão jovem.

— É isso mesmo que você tá pensando. Raya Gap acabou de chegar de aeroplano. Vi ela saindo do aeródromo com o pai no domínio de notícias — disse Lira, mexendo no próprio cabelo, imitando descaradamente algum trejeito da garota. — E ela estava bem bonita, apesar de achar o nariz dela estranho.

Eron passou a trabalhar com mais rapidez, focando na limpeza e ignorando totalmente a menina. O rabo de Rajado balançava perigosamente perto de sua cabeça enquanto ele acelerava aquela tarefa ingrata.

— Sabia que você ia gostar da notícia. Viu como eu sou legal com você? Agora vou voltar pro conforto do meu quarto, aqui ta fedendo muito.  Tchauzinho! — disse a menina, desaparecendo logo depois.

Eron terminou a limpeza daquela baia e levou o balde até o fosso de secagem, onde o material seria transformado em esterco. De lá, olhou para as outras baias à distância. O trabalho que ainda o aguardava era evidente.

Consultou o mostrador: em quinze tiques soaria a terceira badalada. O tempo era curto, mas qualquer esforço valia a pena se isso significasse rever Raya.

— É isso, Eron… você consegue.

Capítulo 2

A Surpresa

Uri Korp caminhava a passos lentos, observando os bustos dos grandes líderes do Estado dispostos ao longo do trajeto naquele corredor longo e curvo. Caminhava para sua sala após uma apresentação de Raf Loop sobre novas diretrizes de segurança que haviam lhe encaminhado naquela manhã. Odiava ser pego de surpresa com convites de encontros que poderiam ser resumidos em uma mensagem, ainda mais em arcos de alinhamento com Koj Haas. Mas como Raf era seu amigo, ele achou por bem prestigiá-lo.

Como em todos os sextos arcos, ele tinha um encontro com a Suprema-Líder da Guarda à tarde. Essas reuniões eram sempre indesejadas, mas necessárias; cabia ao líder da Comissão de Assuntos Lunares mantê-la informada sobre o andamento dos assuntos sob sua responsabilidade, houvesse ou não novidades relevantes.

Passou por colegas apenas acenando com a cabeça. A bolsa a tiracolo, contendo um papiro que batia em sua perna, parecia pesar mais do que o normal. O sobretudo verde-musgo, grande e pesado, era um fardo sob o calor extraordinário daquele arco. Korp ansiava por sua sala para livrar-se do uniforme. Não via sentido em tais formalidades sendo um civil, mas obedecia às regras daquele ambiente militar.

Tudo em nome da ciência.

Seu pensamento foi cortado por uma voz ofegante que ecoou pelas parede curvas daquele lugar.

— Korp! Korp!

Ele estancou o passo, a mandíbula tensa. Antes mesmo de se virar e forçar o sorriso de cortesia, já reconhecera o tom de pânico de Fori Porcha, um dos colaboradores da Comissão de Assuntos Lunares da qual era integrante-chefe.

— Diga, Porcha.

— Eu... preciso falar com você. — disse o homem, os olhos inquietos.

— É urgente?

— Preciso que você veja isso.

Porcha segurou o braço de Korp, conduzindo-o para um canto reservado. Se certificou de que estavam sós antes de continuar.

— Descobri algo. Dados que indicam mudanças — ele olhou novamente ao redor antes de continuar — Parece que houve uma desaceleração abrupta.

Korp encarou-o com um misto de surpresa e desconfiança. Ele sabia do que o colega falava, mas ainda não era o momento daquela mudança.

— Você tem certeza?

— Absoluta. Olhe.

Porcha puxou o papiro da bolsa, acionou o mecanismo e as fibras se acenderam em um tom esmaecido. Gráficos começaram a se formar, revelando uma queda livre seguida de um platô estático. Com a ponta dos dedos, ele ampliou a imagem em um ponto específico.

— Vai acontecer na décima badalada de hoje — sentenciou Porcha.

— Impossível.

— É o que dizem os números.

Korp respirou fundo, sentindo o ar quente daquele lugar.

— Porcha, eu verifico os registros da TOL a cada arco. As projeções são as mesmas há cinco ciclos, desde que eu assumi o comando. Tudo aponta para daqui a cem ciclos.

— Eu... — Porcha hesitou — consegui uma tabela bruta com registros atualizados da TOL. Do último ciclo.

Korp lançou um olhar desconfiado para Porcha. Os dados eram religiosamente enviados diretamente para a CAL, todos os arcos, pelo menos nos últimos cinco ciclos em que Korp estava à frente da Comissão.

Ele olhou novamente para os gráficos e abriu a memória de cálculo. Seus olhos varreram as linhas de código e o selo de autencidade da TOL. Estava tudo certo. Eram informações verídicas que mostravam o processo da desaceleração, a realidade colidindo com ciclos de estudo.

— Me envie essas informações. Vou tentar falar com Haas.

Porcha hesitou e o encarou com uma expressão de dúvida. Não parecia gostar da ideia de mostra aquilo à Suprema-líder.

— Se isso vai acontecer, precisamos de um plano de ação — disse Korp.

Porcha assentiu.

— Alguma ideia de onde será o impacto? — perguntou Korp.

— Ainda estou calculando, mas, pelos dados iniciais, há alguns pontos suspeitos. O problema é que são muitos.

Porcha mostrou a Korp o mapa de Valindor. Quinze marcações indicavam as possíveis áreas de impacto. Todas elas próximas aos grandes centros.

— Vou buscar direcionamento. Volte para sua sala e levante cada detalhe. Precisamos do local exato do impacto.

Korp apertou o passo em direção à sala quatrocentos e quinze. No caminho, sentiu o papiro vibrar. Encontrou uma mensagem privada de Porcha, acompanhada de um encaminhador para aquele relatório. Acessou o material enquanto caminhava, conferindo novamente as informações e se certificando de sua confiabilidade. Os números eram, de fato, catastróficos. Ele estudara por ciclos aquele evento e suas possíveis consequências. Foram cálculos e mais cálculos em estudos aprofundados, cercado de profissionais qualificados, e todos os modelos apontavam para uma margem de cem ciclos.

— O que diabos está acontecendo?

Capítulo 3

Os Contos de Lira

Lira estava em seu quarto, sozinha, deitada na cama com um livro nas mãos. Havia acabado de fazer a refeição da meia-estrela e descansava em meio às páginas que tanto gostava.

Seu quarto era espaçoso e abrigava uma pequena biblioteca particular, da qual tinha muito orgulho. Havia alguns exemplares clássicos, como “Pernas Bambas”, de Kat Nipkins; “No Alto da Colina Rochosa”, de Torn Polkas; “Uma Noite Qualquer”, de Edop Martao, um de seus autores preferidos; e também livros mais didáticos, como “Estado — a História”, de Una Bald, uma famosa historiadora, que falava sobre a criação do Estado, regras e leis. Em meio a todos eles, havia “Contos e Lendas”. A obra de Hop Leder era seu livro favorito e se encontrava em suas mãos naquele exato momento.

Os dedos de Lira percorriam o papel antigo enquanto ela buscava as lendas de antes da fundação do Estado. Entre as histórias de domínio público, figurava “O Caso dos Sete Véus”, sobre uma mulher que pereceu no altar no dia do próprio casamento e ainda aguardava seu amado à porta do Templo Central de Meiomar. Contudo, o que realmente a atraía eram os registros controversos, como “O Caso do Rei Ghik”, cujas páginas sugeriam uma origem para o Estado muito anterior àquela pregada pela Academia.

A menina se perdia por horas naquelas páginas, tentando entender em que contexto cada lenda havia surgido e se havia nelas algum fundo de verdade — ou se, de fato, haviam acontecido. Sua meta era ler todo o conteúdo do livro em um único ciclo, não mais que isso, e produzir um resumo separando as lendas que mereciam ser investigadas mais a fundo daquelas que eram apenas curiosas.

O dedo indicador percorria rapidamente as linhas de letras pequenas, enquanto ela lia com avidez. Cada leitura era uma nova descoberta, e tudo era anotado no Papiro que ganhara ao completar os dez ciclos. Já havia registrado centenas de linhas; a cada nova lenda, um resumo era acrescentado à lista.

Ela terminava de ler “O Caso do Menino Velho” quando ouviu a porta se abrir. Sua mãe, Rot, apareceu à entrada do quarto.

— Oi, minha menina. Você vai com a gente? — perguntou, com a voz mansa.

— Oi, mamãe. Vou sim. Só estou terminando aqui.

Rot entrou e sentou-se ao lado da filha, na cama. Pegou o livro das mãos da garota e leu o título na capa. Ela deu um suspiro antes de devolver o livro para a menina.

— Lira, não encha sua cabeça com essas baboseiras.

— Mas, mãe, não são baboseiras. São histórias. Olha esse caso do Menino Velho… Ele nasceu já com cento e vinte ciclos e foi rejuvenescendo com o passar do tempo!

— Lira…

— É cientificamente possível, eu pesquisei. Pode ser uma mutação na hipófise… apesar de só existir esse relato.

— São lendas, não histórias — respondeu, olhando firme para a menina — Contos dos antigos para amedrontar crianças.

— São lendas baseadas em histórias que provavelmente aconteceram — retrucou Lira.

— Minha filha, quantos homens “velhos” que rejuvenesceram você já conheceu nessa sua breve vida?

— Nenhum.

— Eu também não conheci e tenho bem mais ciclos que você. Se perguntar para o seu pai, para Gorgina, para Min Toyti, eles vão falar exatamente a mesma coisa.

— Mas isso não quer dizer que não tenha acontecido. Pode ter sido em uma era antes das de vocês todos!

A mãe sorriu e desistiu da discussão. Levantou-se e caminhou até a porta. Antes de sair, virou-se.

— Termine e vá se banhar. Coloquei aqueles sais na banheira que você gosta.

Lira sorriu. Adorava esses pequenos mimos da mãe.

— Tá bom, mamãe. Vou terminar a última e já vou.

— Fique de olho no seu mostrador. Já vai soar a sexta badalada. Temos que estar no Templo antes da oitava para conseguirmos lugares para sentar — disse Rot. — A propósito, sabe onde está seu irmão?

— Deve estar nos estábulos, cumprindo o castigo do papai — respondeu a menina, com um sorriso disfarçado.

— Pelos Deuses… Erog sempre exagera nesses castigos. Aposto que o garoto nem comeu ainda — murmurou a mãe, fechando a porta.

Lira pensou: não concordo, acho bem merecido, e voltou ao Papiro para concluir a anotação. Em seguida, olhou para o próximo título:

“O Caso do Menino Lunar”.

— Esse vai ficar pra depois.

Continue a jornada

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